Conversas entre duas amigas no limite da inadequação

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Resposta em uma sexta-feira, 18 de março, 9h39

Amiga,
 
Eu não tenho respostas. Eu não tenho soluções. Eu também gostaria de ser gostada pelo que sou, sem antes precisar seguir um padrão idiota qualquer. Por muitas vezes eu já me perguntei o que teria acontecido com a minha vida se eu não tivesse sido, violentamente (no sentido de não ter tido escolha), retirada do meu habitat e do convívio dos meus amigos para ir parar numa cidade mais péssima que Belo Horizonte e ter que me acostumar com a solidão.
 
De vez em quando, fico pensando se essa minha mania de gostar de estar só não começou lá na adolescência, quando meu orgulho e meu amor próprio me diziam para dizer que eu não queria ninguém, quando na verdade era ninguém que não me queria. Hoje, eu realmente não quero ninguém. Pelo menos, ninguém possível. Porque alguém possível vai acabar descobrindo que eu sou uma fraude. Que além de feinha, eu também não sou tão inteligente como as pessoas me veem, nem tão competente, nem tão profissional, nem tão bem de vida, nem tão bem humorada, nem tão bem sucedida, nem tão feliz.
 
Mas essa coisa da felicidade, eu aprendi a associar ao contentamento. Se as coisas estão bem, se eu não sinto falta de nada, então sou feliz. Mesmo sendo tão ilha, tão do tipo que ninguém compreende mesmo... Eu gosto quando alguém me diz que eu sou boa, porque eu sempre penso: estou enganando direitinho... Se eu estivesse em outro país, bem longe de tudo que é importante para mim, sem ter que dizer onde estou, a que horas chego e para onde vou, será que eu seria a mesma pessoa?
 
A nós que não recebemos de Deus o dom de fazer outras pessoas felizes, Deus deu a criatividade. Disso eu sei. E também nos deu habilidade com as palavras, para poder dizer e gritar aquilo que nos sufoca e que jamais teremos coragem de dizer em uma terapia.
 
Você não está sozinha nesse mar. Talvez esteja sozinha no barco, mas meu barquinho, onde também estou sozinha, está navegando ao lado do seu.
 
E se foi meu orgulho que me fez dizer que eu nao queria ninguém na adolescência, que seja esse mesmo orgulho nos leve a dizer (e acreditar) que essa tristeza não é tão ruim. Porque, pelo menos, temos capacidade de nos indignar quando alguém diz ser "imoral" termos uma presidente mulher, ou que um povo reprimido pelos militares também foi um povo mais contente... ou que é preciso ser magra, ser bela, ser loira, ser esperta para ser alguém reconhecidamente bom para essa sociedade hipócrita. Ou que é preciso se casar e ter filhos, e encher esse mundo de gente triste como nós, porque é isso que todo mundo faz mesmo...
 
Esse não é o nosso drama. É a nossa condição de ser gente, de ser humano nessa selva. É a consequência de nossas escolhas. Ou de nossa trajetória... talvez hoje eu fosse esposa e mãe se não tivesse saído de Valadares para experimentar a solidão. Mas será que isso me faria feliz? Ou será que estaria fazendo meu marido e meus filhos felizes? Se minha vida tivesse sido essa, talvez hoje eu fosse só mais uma pessoa medíocre, que acredita que estar com alguém é tudo o que temos para fazer na vida... pessoas que nunca, por mais que isso seja tão dolorido, saberão como é precioso, antes de tudo, estar consigo mesmas.
 
Abraço,
 
Lígia

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2 Responses so far.

  1. Ligian says:

    Em alguns mares existem vários navios, inclusive de cruzeiros marítimos, que estão abarrotados de pessoas se sentindo no meio do oceano num bote salva-vidas. Poder dizer, escrever e externar de alguma forma os sentimentos é uma das coisas que mais invejo em pessoas como você, Li. Eu, apesar de faladeira e de projeto de "escrevedora" (hehehehehe!!), do que sinto e penso no fundo da alma posso escrever, falar, chorar muito pouco.
    Mas...

  2. Lígia says:

    Li, não creio que eu faça isso melhor que você... de verdade! Você expressa os sentimentos de uma maneira linda! E com o toque da liderança que você exerce, instituida por Deus, sobre pessoas como eu...

    No meu caso e da Cássia, entendo que algumas coisas são ditas de maneira mais sincera e transparente quando são de uma alma para outra... É isso o que pretendemos com esse blog. Cássia e eu num diálogo de almas, explorando ao máximo as palavras e as entrelinhas...

    Obrigada por nos visitar... Depois de anos trocando e-mails supersinceros, finalmente a gente resolveu arriscar para ver se temos futuro literário, ainda que na blogosfera...

    Quem sabe você não seja justamente mais um barquinho navegando com a gente? Mas um barquinho mais populoso, com certeza! (risos)

    Abraços!

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