Conversas entre duas amigas no limite da inadequação

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Cartas na rua

Amiga,

As correspondências marginais deveriam ser "cartas na rua", como o livro do Bukowski. Aquele que diz: "TUDO COMEÇOU COM UM ERRO."

É o tempo que ele levava a vida dura, embora seja possível depreender que quase toda existência de Bukowski não tenha sido fácil. Daí o realismo exagerado que a maior parte das pessoas insiste em chamar de pessmismo. A não ser que você seja Pollyana. Aí vai conseguir ver luz, cor e flores mesmo no deserto. Mas a vida é muito dura.

Basta olhar para janela. Se você vê uma criança viciada em crack e ainda assim acredita que a vida é legal. Você não se importa. Se você vê a guerra dizimando populações inteiras ao redor do planeta, hecatombes e ainda assim acha que a vida é legal. Você não se importa. Se você um centena de milhares de anônimos que trabalharão duro e no fim do dia mal terão o que comer e acha ainda que tudo é "divino e maravilhoso". Desculpe, mas você não se importa.

Nós temos conforto e condições de lutar e, sobretudo, fazer escolhas. Mas a vida está longe de ser esssa incrível e fantástica aventura que, fatalmente, terminará em caixão e vela preta e alguma imagem alusiva ao paraíso (se é nisso que você acredita).

A vida do Bukowski não foi nada boa. E pelo que tenho lido, parece quase uma condição para ser um bom autor. Seja marginal de alguma forma. Sendo pobre ou simplesmente disfuncional socialmente. Machado de Assis era negro no Brasil pós-abolicionista.  Lima Barreto, negro e alcóolatra. Truman Capote e Walt Whitman eram homossexuais. E duvido que tenham tido uma existência fácil. E aí ficam as grandes obras que deverão ser lidas por uma grande quantidade de gente imbecil. Porque o mundo está cheio dessas pessoas.

Tenho quatro livros do Bukowski (Cartas na rua, Misto Quente, Hollywood e Fabulário Geral do delírio cotidiano) e tenho que pescar citações. Era esse o combinado.

Abro o livro aleatoriamente  e eis que ele vomita: "Talvez escrever fosse uma forma de lamento. Alguns simplesmente lamentavam melhor do que os outros."

Ele, que não era vinculado a nenhum movimento político, chegou à seguinte conclusão: "Numa sociedade capitalista, os perdedores são escravizados pelos vencedores, e é preciso haver mais perdedores que vencedores."

"Sei lá - eu disse -, mas tenho a impressão de que as pessoas que não pensam muito sempre vão parecer mais jovens por mais tempo."

"O que não possuímos na realidade, estamos prontos para ter em espírito. (...) Enquanto isso, não nos emburramos na sombra da descrença."

E vou encerrar com essa citação. Talvez esses posts durem dias e dias e dias até que o que eu acho relevante esteja compilado: "Vocês sabem, quando se passa muitas horas, muitos anos fingindo ser uma pessoa que não se é, bem, isso pode nos causar alguma coisa. Já é duro bastante tentar ser a gente mesmo. Pensem em tentar muito ser alguém que não se é. E depois ser outra pessoa que tampouco se é. E depois outra. A princípio, vocês sabem, pode ser emocionante. Mas depois de algum tempo, depois de a gente ser doze outras pessoas, talvez seja difícil lembrar quem é mesmo, especialmente se a gente teve de compor as próprias falas."

Encerro por aqui. Não tão pessimista como poderia ser, mas com um senso de realidade aguçado e grata por manter no meu caminho (seja qual for ele e seja para onde ele vá me levar).

Saudades,

Cássia

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